quarta-feira, 8 de agosto de 2007

irmã dulce das putas

Ela começa a bater palmas e batucar no próprio corpo - um som sequinho, levinho, na carne idosa de ossos frágeis - e canta versos que a glorificam como Irmã Dulce das putas, viados, moradores de rua, os habitantes dos subterrâneos da Ladeira da Montanha e região. Sua voz está acostumada a berrar. É volumosa.

Mãe Preta samba, sorri e depois da música dá uma risada linda, mostrando os dentes que ainda restaram. Acabada a brincadeira, vai mexer a panela do feijão que servirá a seus "filhos", já famintos na porta do cubículo sub-humano que serve de quarto-cozinha-casa, assistindo ao espetáculo.

É minha terceira visita. Na primeira, ela chorou pedindo piedade pela sua condição miserável de vida. Na segunda, estranhando me ver de novo, não chorou nem riu: me devorou com os olhos. Devo ter passado no teste - na terceira vez, ela contou pequenos segredos sem nexo aparente.

Mantém a dignidade a seu modo, assim, oscilante. É muito vaidosa. Usa colares, anéis, relógio grande, óculos de lente colorida para enfeitar a cabeça. Neste ponto, está bem distante de Irmã Dulce.

5 comentários:

anjobaldio disse...

Valeu a visita lá no anjo baldio. Teu blog e teus textos são maravilhosos. Grande abraço.

SANDRO ORNELLAS disse...

Olá, Katherine. Muito legal a relação da Mãe Preta com a Irmã Dulce, principalmente os detalhes finais: a Mãe Preta é humana, demasiado humana, e sem pretensões a santidade.

SANDRO ORNELLAS disse...

ah... e obrigado pelo link!

Renata Belmonte disse...

Ela é uma mulher admirável, incrível. Gostei de ler suas palavras sobre ela.
Bjsos,
Renata

aeronauta disse...

Katherine, valeu o pedido. Um grande abraço.