domingo, 11 de novembro de 2007

homens

Asfalto carcomido das bordas ao centro. Buracos. O carro segue indiferente, desviando dos perigos, sempre em frente. A luz do dia entra pelos olhos como lança-chamas. Marujo acende o cigarro, nota que é o último e continua a dirigir. Ainda mais rápido.

Em meia hora, outra paisagem o espera. A do quarto de Ernestina. Pequeno, mas sombreado e bem ventilado. Tina sempre fazia valer o esforço, a poeira, o suor, o cansaço. Esperava Marujo com o almoço pronto e o corpo perfumado. Todo domingo, há três anos.

Quando volta para casa à noite, o homem se joga para os braços de Graziela, sua mulher, como se tivesse realmente passado o dia jogando bola com os amigos. Enche-a de carinho e jura amor eterno entre beijinhos inocentes. O corpo de Tina era a lembrança que dava vigor para Marujo amar a esposa dia sim dia não, antes de dormir com os anjos.

6 comentários:

Kátia Borges disse...

Bacana, Katherine, o seu texto é enxuto e elegante. Gosto muito de como as imagens vão construindo cada cena. Bjs

anjobaldio disse...

Bem cinematográfico.

Anônimo disse...

gostei principalmente por não fazer juízos de valor explícitos no texto. quase apenas descrever.
Sandro Ornellas

M. Gallo disse...

E foi assim que a humanidade se fez... E cá estamos nós... Abraço, Mayrant.

Ivan Dmitri disse...

Adorei os beijinhos inocentes, reservado ao domingo, dia não. Mas você me permite só um parágrafo de continuação?
_Ainda bem que ele chega exausto do futebol, pensou Graziela. E se deita de lado, olhos abertos, um meio sorriso de lembrança, o corpo levemente dolorido. Como acontecia há quase dois anos desde daquele domingo em que o porteiro analfabeto de Ipiaú, com pinta de Gael, havia ajudado a estancar o vazamento do sifão da pia e o seu tédio dominical .

Ivan Dmitri disse...

Katherine,
mal comecei e tropecei. O blog do Ivan foi parar em algum lugar de onde não pode ser resgatado para atualizações. Novo endereço: http://dmitriivan.wordpress.com.
Aguardo futuras visitas.
Ivan Dmitri.